Sempre gostei de dias das bruxas, mas desta vez não deu para eu aproveitar como queria. Torci o dedão do pé esquerdo no início da semana no trabalho. E por causa disso, fui obrigada a ficar em casa, com a perna imobilizada do joelho para baixo (sinceramente não entendo! Se o problema é no dedão, o que o restante da minha perna tem haver com isso?). Mas em clima de dia das bruxas e envolvida pelo tédio de três dias sem ter o que fazer, decidi enfrentar os meus medos. E me propus um desafio: passar um dia inteiro, apenas um dia, somente com a companhia da programação das tvs abertas.
Comecei com a Ana Maria Braga, que com aqueles cortes de cabelo mais parece uma duende. O Mais Você, da Rede Globo, que antigamente era um simples programa de receitas e artesanato, agora é uma miscelânea de quadros sem muito sentido, como se tivessem a atirar para todos os lados atrás da audiência, com direito a um reality show maluco de culinária e os principais desastres do Brasil (desastres, pois o jornalismo se resume a basicamente isso quando faz entradas no Mais Você).
Com o poder do controle remoto em minhas mãos, zapiei os canais em busca de outro programa, com a esperança de ser melhor. E parei no Hoje em Dia, da Record, que para entrar no clima de Halloween vou chama-lo de família Addams Brasileira, com a Ana Hickmann como Mortícia, o Edu Guedes como Sr. Addams, a Chris Flores como Wandinha e o Britto Jr. no papel do Tio Chico.
Eu acho que são muitos apresentadores para poucos quadros, e ainda tem entradas de âncoras do jornalismo. Não nego que isso dá uma certa dinâmica, mas sempre tem dois apresentadores que ficam perdidos no quadro. O programa em si também é uma miscelânea de coisas: fofoca com culinária, jornalismo, moda e umas provas chatas que exigem a participação do telespectador em casa. Aliás, está aí algo que eu nunca entendi. Quando era jovem, tentei várias vezes participar em casa, por telefone, desses programas e nunca consegui. Isso já me irritava. O pior é que a grande maioria que “consegue” (coloquei entre aspas pois acho que muitas vezes é armação), entra ao vivo para falar bobagens e dar as piores respostas possíveis. O que é frustrante! Confesso que depois de um certo tempo, perdi a paciência com o programa e voltei a buscar outros atrativos nas tvs abertas.
Na Redetv, fiquei pouco tempo. Eu não entendo, principalmente sendo jornalista, como é possível você fazer o trabalho em cima do que já foi feito pelos outros. E o programa matinal da bruxinha Olga Bongiovanni é basicamente isso. Ela tira do caldeirão tudo o que saiu nas revistas (ora, quem quiser que compre, né?!), passa imagens congeladas captadas da internet de cenas da Globo e fica comentando as fofocas chatas sobre a vida dos artistas. E cá entre nós, é difícil uma celebridade brasileira se meter em algo que realmente seja interessante de ficar sabendo. De novo me sentindo a dona do mundo, mudei de canal.
Foi aí que realmente que comecei a ver o terror da programação brasileira matinal. Deveria ser proibido passar o que eu vi na tv em um curto espaço de tempo. Acho muito pior do que cenas de sexo explícito! Vi cenas de exorcismo e charlatanismo descarado. É impressionante! Quase todos os canais abertos exibem cultos, seitas, missas e afins. Tem uns que faltam pouco para se transformarem em um verdadeiro circo: tem palco (o altar), cobram ingresso (o dízimo), tem mágico (o pastor fazedor de milagres) e tem palhaço (infelizmente os fiéis enganados). E ainda tem aqueles que querem ser uma espécie de talk show, na qual o pastor/entrevistador conversa com o fiel/entrevistado. Quero deixar claro que não estou aqui para questionar ou me queixar de nenhuma religião. Acho a fé fundamental para a vida. Mas tudo tem um limite! Quando a intenção deixa de ser fazer o bem e se transforma em capitalismo selvagem, já não encaro mais o ato como religioso.
Imaginem a cena: em um cenário elegante, com direito a tv de plasma, poltronas luxuosas e revestimento de madeira, uma mulher gorda, loira, já de meia idade, sentada vestida de branco. Em frente a ela, de pé, um homem com calça social escura (acho que preta) e blusa social branca. O assunto: o passado da entrevistada. A mulher diz que já foi dona de uma “casa de encosto” (terreiro de macumba) e que fazia vários trabalhos maléficos com os “encostos” que servia (os guias de macumba). Pra mim, quem diz que já fez encosto, quer estar mesmo é encostado em algo. É muito fácil você colocar todos os seus problemas e medo em uma terceira pessoa, sem querer arcar com as conseqüências dos atos. É realmente muito cômodo!
Mas o pior estava por vir! Neste castelo de horrores, falta o mais sedutor dos monstros: o vampiro. Aquele que suga a sua inteligência, seus pensamentos e o leva para o habitat dele. E ainda consegue mexer com sua cabeça de tal jeito que faz de você parte do projeto, te deixa cheio de sede por sangue, a fim de convencer novas vítimas a levarem a mordida. Pois vocês sabem, na lenda primária do vampiro, ele sempre tem que ser convidado, ou seja, ele só entra onde é querido.
O telefone tocou e o Conde Drácula atendeu a ligação. Do outro lado da linha, a vítima, ou pior, as vítimas. Uma mãe desesperada conta que está assustada com o baixo rendimento do filho na escola, o menino troca as letras, tem dificuldade de leitura, de memorizar o que a professora ensina. A mulher queixasse também que a pobre da criança não se interessa pelo estudo e acaba por confessar que o casamento está a um passo de se desfazer. Por último, a vítima abre as portas da alma, convida o vampiro a atacar e diz que achou um lenço vermelho em frente a casa onde mora. Logo em seguida, indaga: “Não poderia ser isso um trabalho para encosto?”. Prato cheio! Era possível ver os olhos sedentos por sangue novo! A encostada mãe dos encostos responde de prontidão: “Claro! Existe o trabalho do lenço vermelho!” e começa a falar várias outras abóboras.
No dia das bruxas, nesta hora, meu sentimento foi de raiva, muita raiva. Depois de pena. O que eu acho pior ainda. Fiquei com pena da mãe, da encostada, do vampiro sedento, e principalmente, da criança. Coitada! Ela pode ter dislexia, algum tipo de retardamento mental, ou até mesmo uma péssima professora. Enfim, um menino que está no meio do furacão do divórcio dos pais, com dificuldades de aprendizado e agora ainda acha que está enfeitiçado. Enquanto ele não melhorar, está fadado a se sentir culpado, até que uma boa alma consiga levar o auxílio que este pequeno brasileiro merece.
Depois desta cena, me dei por vencida do meu próprio desafio. Me senti impune, refém do que se transformou a mídia brasileira. E fiquei pensando nas centenas de pessoas que não tem tv à cabo e passam por esta sexta-feira 13 todos os dias em casa. Não é a toa que com o tempo todos ficam abitolados. Nenhum dos programas te leva a pensar, a questionar. Nenhum explica ou tenta explicar o que está se passando no nosso mundo hoje. Nenhum tenta acrescentar algo de produtivo na vida de quem assiste.
Eu, que tenho ainda o poder de questionamento e do controle remoto, desliguei a máquina de horrores, fechei as portas do castelo fantasma e troquei tudo por um bom livro. E mais tarde, pelo computador. Não venci a minha própria prova, mas consegui sair vitoriosa. Pelo menos por enquanto...










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